Crônicas

A crônica, com seus óculos mais refinados, atenta-se ao que é considerado frívolo e patético. Quando nos habituamos à passagem dos fatos por nós, e de nós por eles, acabamos reduzindo a repetição dos dias a uma indiferença silenciosa — depois, irritada: o que é? me deixa! Desconsiderando calmantes, o que haveria, pois, nesta sessão? Haverá uma trégua, simplesmente, como quando uma criança, brigada com outra, decide fácil e subitamente voltar atrás. Voltemos atrás ora, como se, ao correr por um espelho, retivéssemos nosso olhar espantado no que perpassa nossa própria obviedade — tréguas, de vez em quando, não são martírios que ferem o orgulho: são crônicas.

TEXTOS

Subexposições de um passageiro

Antes que o ônibus pudesse apresentar qualquer impulso de ida, os olhos entreabertos do homem descansavam sobre uma única folha, cobertos por uma fina camada de vidro que os restringia. Acompanhando um sono gradativo, deixava as próprias ambições de lado e se preocupava apenas com aquela folha. Era tão importante quanto, e tão imprescindível quanto a rotina que o colocava sentado no banco da grande máquina, rumo à sua casa, ao seu filho, indo de mãos dadas ao sol – um movimento único atraía suas pálpebras enquanto caiam em vermelhidão. Lentamente, toda sua compreensão e cuidado para com a folha foram carregados pela correnteza da rua, escorregadia como um córrego de águas ligeiras e solidamente turvas. O ônibus prosseguia pelos caminhos imprecisos até às proximidades do que chamava de casa. Tentava permanecer acordado para não perder o ponto, preso a uma meditação que reafirmava suas impressões – como o cansaço ao respirar – para um sentimento de primordialidade. Até aquela folha o prendia...

Quando chegou ao destino, imaginou qual seria a rota mais curta para casa, uma que pudesse recordar. Não passava ali todos os dias, com o corpo e com os pensamentos que lhe sobravam após o trabalho? Passaria meses sem ter uma mínima atração por onde andava, pois as coisas acomodavam-se apenas tangenciando o que considerava relevantemente inusitado. Tomaria, inclusive, seus passos como certos e necessários, mas estando com as articulações e toda sua massa corporal mais pesadas – pelas horas em pé limpando, lavando e zelando, pelo filho ou ainda mais pelo futuro –, lembrou-se de uma pergunta que havia feito ao cobrador de ônibus:

– Pode me dizer onde estou? Ou melhor, se estou presentemente aqui?

O cobrador, corcunda, tinha um tom grave de uma vida cheia de destaques densos, os quais se desvincularam dele, a formar sons e palavras:

– Só passa! Tem gente também querendo passar, se está perdido, por que saiu de casa?

Adiantou-se em direção ao prédio onde morava, como que disposto a cumprir a ordem do cobrador: só passar, e se deixar ir, que nem uma folha seca no chão. Por um único esforço, aproximava-se do prédio de um amarelo-rubro o qual se granulava em pontos pretos. Identificava-se com a exaustão da fina camada de tinta. O último andar, no qual ficava seu apartamento, aguardava-o junto a uma expectativa de ver o filho. Antes de passar pela porta com acesso às escadas íngremes, assegurou-se de que tinha condições para deixar a hierarquia de prioridades, à qual se submetia, e se comprometer com cada passo em cada degrau – tinha uma sensação de que tudo estava em jogo, não o que banalmente chamavam de vida, mas sua percepção sensível e acolhedora. Com esta, poderia passar no terceiro e penúltimo andar, onde o filho era assistido por uma moça que oferecera sua casa e seus cuidados por um preço relativamente bom, insistindo na comodidade de todos.

Subia andantemente, com um peso maior em uma das pernas, o qual lhe daria apoio para se ver indo contra uma correnteza. Chegando à porta da cuidadora e se acostumando com o fim de tarde azuladamente cinza, um silêncio e um estado de iminência dominaram-lhe o corpo. Ficou em expectativa até pronunciar quatro batidas ocas – foram segundos suficientes para distinguir esperança nas sombras difusas que o tomavam. A moça, então, abriu a porta em um sobressalto, sentida pelo fato de o homem ter parado para levar o menino até o próximo andar. Quem o fazia ,metodicamente, era ela. Mas ali ele estava. Não fez questão alguma, pegou o pequeno, que se perdia em sono, quase em um exercício de abstração das possibilidades, e o reconfortou cautelosamente no colo do pai. Olharam-se com agradecimentos e com um certo ar de cumprimento de deveres – ela voltava para dentro de casa e ele, com cada passo e com ternura nos braços, via-a fechando a porta.

Em frente ao simpático tapete anunciando “bem-vindo”, ele relaxou os pés, jogou os sapatos desgastados para o lado e atravessou aliviado o arco da porta. Deitou o filho no sofá e sentou por uns minutos à mesa da cozinha. Sobre ela, avistava a conta de aluguel pendente, a qual confiava nos seus atrasos para se tornar mais valiosa. E ele sentia uma certa facilidade em se resumir ao que considerava invariavelmente básico, sem se importar caso pisasse em milhares de folhas secas ao mesmo tempo e delas nada ouvisse, sequer um pedido de misericórdia: por nós, mas também por você, senhor! No entanto, estava convicto de que ainda lhe sobravam alguns movimentos antes de seu desenlace à beira da cama, antes de pedir um troféu naturalmente pesado: ainda que brevemente, poderia segurar a si mesmo. Tirou a blusa do corpo, deixando suas negligências à mostra, e se comprometeu a lavar o próprio mistério que o vestia – era quente, quase vivo.

A se queixar de sua condição em evidência, misturada à superfície do corpo, andou até a pia da varanda com passos irregulares e vertiginosos, como se acabassem de acordar com a noção de si mesmos; abriu a torneira, sentiu a água concentrando sua percepção na frieza com que se manifestava, e com certo rancor, forçou a blusa sob o líquido, certificando-se que poderia matá-la e que poderia se livrar da banalidade acumulada nos tecidos. Esfregava e torcia o algodão barato, embora não houvesse indícios de que seu desejo estava satisfeito – queria preservar uma vivacidade ardente e intensa. Rendido, esgotava-se no entendimento da irreversibilidade: regulava novamente o furor soltando os fios, infinitamente contáveis, e os deixando, como um todo, sobre o varal – escorria um sangue frio das beiradas da blusa, diluído à luta que acontecera e à desconjuntura do homem.

Este, após a tentativa que expressara, dirigiu-se ao banheiro como quem encontra sob o chuveiro o único consolo. Notou uma delicada camada de poeira na parte superior do objeto – havia finas camadas de poeira em tudo que evitava lançar o olhar, era um quebra-cabeça de esquecimentos materializados e justapostos. Esforçou-se para manter uma lembrança do filho, junto à folha, juntos a caminho de casa, juntos em busca de um não-sofrimento. E quando sentiu o primeiro filete de água desenhando uma linha por suas descontinuidades, já pressentindo o rompimento de outro dia, deu tudo de si ao último pensamento que guardaria para uma futura calamidade; clamaria, em súplicas, ao cobrador de ônibus e a quem estivesse por perto:

– Por favor! segurem-me, senão deslizo sobre mim.

Por Kayron Maikiel